Rivalidade entre irmãos

*por Catarina Rivero & Marta Borges Pires

A família está em constante evolução e mudança criando novas realidades às quais se irá adaptar: alteração do número de elementos do sistema familiar; mudanças de idade dos seus elementos; e mudanças do seu estatuto ocupacional são alguns dos critérios comummente considerados como marcadores dos possíveis estádios deste ciclo vital.

Sempre que ocorre uma mudança na família, como o nascimento de um segundo filho, todos os seus elementos e respectivas dinâmicas relacionais serão sujeitas a reestruturações, de forma a se adaptarem à nova realidade. Um novo filho traz não só uma nova estrutura à família, como o experienciar de emoções diferentes em qualidade e/ou intensidade.

A fratria é efectivamente um dos mais importantes laboratórios de socialização em que a criança vive e experimenta acções e emoções, preparando-se para as suas relações sociais exteriores à família, que irá desenvolver mais tarde.

Se bem que muitos pais e educadores considerem esta rivalidade como algo de negativo e a ser inibido, consideramos que se trata, como já referimos, de um meio de desenvolvimento de competências sociais e em particular de aprendizagem na resolução de conflitos, sendo que as crianças na maioria das vezes mostram ter competências para resolver as suas próprias divergências. Assim, a intervenção de um adulto deve ser efectuada apenas quando a rivalidade está a ser vivida de uma forma que vai além dos limites.

A intensidade e frequência da conflituosidade depende de múltiplos factores, como a relação com os pais, o ambiente familiar, o número de irmãos e posicionamento na fratria, exposição a eventos agressivos, bem como características individuais. Quando expressos os conflitos na relação fraterna, estes ocorrem normalmente na infância, com tendência a serem resolvidos durante a adolescência. Se bem que é a partir dos 3 anos que a criança toma consciência do “eu”, confrontando-se com os outros, poderá verificar-se ao longo de toda a infância alguma rivalidade ou conflitos entre irmãos.

É importante que os pais evitem a tendência de reprimir a rivalidade entre irmãos a qualquer custo, já que esta é natural e estruturante no desenvolvimento infantil. Ao verificarem uma situação de conflito os pais deverão intervir apenas em último caso – deixar sempre que as crianças tentem primeiramente resolver o conflito por si – como mediadores, isto é, não tomando partido, mas solicitando às crianças que partilhem os seus pontos de vista e emoções sentidas. Poderá ainda ser útil que os próprios pais digam também o que sentem naquela situação.

De forma a promover um bom e duradouro relacionamento entre irmãos, os pais poderão procurar dar atenção a ambos os filhos, com especial cuidado na fase de nascimento do segundo filho, por exemplo, em que o mais velho se pode sentir rejeitado/abandonado – nesta altura, ter em conta a importância da partilha de afecto, não dizendo que irá gostar de ambos da mesma forma (que não acontece), mas lembrando que são crianças diferentes que os pais amam muito, e que estarão lá incondicionalmente para cada um.

Ficam alguns conselhos para potenciar uma relação positiva entre irmãos:

  • Valorizar e elogiar o filho mais velho, quando o mais novo, devido à sua idade, necessita maior atenção.
  • Promover, ao longo do crescimento dos filhos, espaços de convívio e actividades conjuntas que irão reforçar a relação entre irmãos, com amizade e cooperação, reforçando o sentimento de pertença à família.
  • Valorizar a diferença entre os irmãos para que as crianças se sintam bem com as suas características e também elas aceitem as diferenças dos demais.
  • Não tomar partido nas divergências entre irmãos.
  • Incentivar os filhos a procurarem estratégias de resolução dos conflitos.
  • Se uma rivalidade está a ser excessiva, os pais deverão definir os limites e intervir como mediadores, promovendo a partilha de pontos de vista e emoções.
  • Nunca fazer comparações entre irmãos.
  • Ajudar as crianças a diferenciar as emoções sentidas irá ajudá-las igualmente no seu desenvolvimento psicossocial, já que percebem o que estão a sentir e podem desenvolver estratégias para lidar com situações difíceis.

No caso dos pais sentirem que a rivalidade entre os seus filhos está a tomar proporções preocupantes, ajudará falar com outros pais com filhos da mesma idade, com os professores (no caso de estarem em idade escolar) ou, se sentirem necessidade, recorrer a profissionais de ajuda da área da terapia familiar ou aconselhamento parental.

Referências Bibliográficas:
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Oliveira, J. (1994). Psicologia da educação familiar. Coimbra: Livraria Almedina.
Relvas, A.P. (1996). O Ciclo Vital da Família – Perspectiva Sistémica. Ed. Afrontamento.
Vandenplas-Holper, C., & Abreu, M. P. V. (1983). Educação e desenvolvimento social da criança. Livraria Almedina
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